terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MEDO POR QUATRO ANOS

TIVE MEDO DURANTE 4 ANOS. 

Fui designado para comandar a Polícia Militar de São Paulo em abril 1974. Logo tomei conhecimento de dois problemas gigantescos; o de menores e o presídio do Carandiru. Não eram obrigações nossa, mas no final seria a Polícia Militar que iria resolver.

Logo de saída fui ao batalhão de menores. Tomava conta da muralha. Dentro não era de nossa responsabilidade. Tinha lido um livro de uma socióloga paulista onde afirma que as crianças que viviam no tal depósito eram até roídas por ratos. Nunca imaginei que um dia iria confirmar o que foi escrito. Vi com os próprios olhos. Ainda me revolto quando me recordo. Foi no governo Paulo Egídio que a coisa melhorou e muito; os dirigentes tinham amor no coração.

O Carandiru  era um paiol de pólvora. Lembro-me de uma reunião que tive com o secretário de segurança pública e o juiz das execuções penais. O juiz, com toda razão, afirmava que não podia continuar como estava. Ia explodir. Se minha memória não é falha os números eram alarmantes. O Carandiru comportava 2.500 presos estava com uma população acima de 7.000.

Procurou-se uma solução. O juiz sugeriu retirar os presos do Carandiru e colocar nas delegacias e a Polícia Militar ser responsável pela prisão dos presos. Era criar novas prisões sem condições mínimas. As delegacias já estavam cheias. Terminou-se  a reunião sem solução, pois aleguei que a Polícia Militar indo tomar conta das delegacias a sociedade ficaria sem segurança.

Todo dia era um dia de Deus, que é muito bom para mim e esperou para eu deixar o comando e permitir a explosão do Carandiru. O resultado não poderia ser outro. Imagino, pois lá não estava, mas soube que quando foi aberto o portão os presos jogaram fezes, urina e mil coisas... mas a força recebeu ordem de invadir, era matar ou morrer. Terminou o processo com o voto de um desembargador, dando a razão à força. Morreram mais de 100 e Manaus pouco acima de 60.

Logo que deixei o Comando da PMSP fui promovido ao Posto de general e continuei a andar pelo Brasil afora, sentindo que cada dia que passava mais grave os dois problemas ficavam.

Em 1988 fui para a reserva, lendo e acompanhando o caminhar do meu país sentia que uma dia ia explodir as cadeias públicas. Aconteceu e agora estão atrás dos culpados. Um político, em conversa comigo, disse a VERDADE:

“ O PROBLEMA DOS PRESÍDIOS É DE SOLUÇÃO DIFICÍLIMA, pois CONSTRUIR CADEIA NÃO DÁ VOTO”... TRISTE VERDADE!
PRESIDIO É UM PROBLEMA SOCIAL GRAVÍSSIMO!
A SOLUÇÃO É AS AUTORIDADES SEREM RESPONSÁVEIS! TUDO O MAIS É CONVERSA.


Ir.Torres de Melo 
General-Coordenador
GRUPO GUARARAPES

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